Chilenismos e curiosidades da fala

Para cachar (entender) a fala chilena é preciso avisparse (ser inteligente) e apechugar al tiro (enfrentar de imediato) uma gíria que pode ser muito bacán (legal, espetacular, bacana).

jueves, 15 de julio de 2010  
Chilenismos y curiosidades del habla (Photo:Universidad Católica)

Ao idioma espanhol escrito no Chile se adiciona o dinamismo da fala cotidiana. Estamos falando de uma gíria que recebeu a herança das línguas dos povos nativos, especialmente do mapudungún. A expressão da fala chilena é denominada chilenismo. Com razão os estrangeiros ficam encantados com este particular slang e não demoram em incorporá-lo a seu vocabulário.

São palavras e frases nas que abundam a linguagem metafórica, as rimas e as relações engenhosas para expressar com picardia o que é conhecido no Chile como sabedoria popular. Chama também a atenção dos estrangeiros e de alguns chilenos a forma engraçada com que temas sérios são abordados.

A riqueza da sua fala se origina de palavras de outros idiomas. Alguns exemplos: cachar significa entender, é derivado do inglês to catch; valer callampa, significa valer muito pouco, vem da palavra quéchua kallampa, que nomeia os cogumelos que crescem em qualquer lugar. As tribos urbanas de jovens são as principais criadoras de novos termos e gírias. Na hora de utilizar chilenismos é recomendável estar informado e atualizado, porque mudam constantemente.

Uma das coisas típicas da fala chilena é o costume de denominar diversos tipos de pessoas com nomes de animais.

No espanhol falado no país se escutam alguns giros que também são pequenos defeitos de dicção. É comum que o chileno não pronuncie os “s” e os “d” no final das palavras, inclusive no final de algumas sílabas. Desaparecem totalmente ou são apenas insinuados.

É costume dizer verdá em lugar de verdad (verdade), e salú por salud (saúde). Também é frequente dizer laoh em vez de lados, e cosah e não cosas (coisas), usando o singular quando a palavra é plural e deve terminar com “s”.

Na fala dos chilenos também não se faz uma diferença clara entre “b” e “v”; nem entre “c”, “s” e “z”. Talvez a característica mais particular seja o uso de diminutivos, costume que aparece em todos os estratos sociais. Por exemplo, no verão você toma solcito (solzinho), na metade da tarde se convida a beber um tecito (chazinho) e de manhã um cafecito (cafezinho), aquele que chega tarde está atrasadito (atrasadinho) e quem trabalha muito está cansadito (cansadinho).

Chilenismos seletos

Al tiro
Significa de imediato ou a toda pressa e os chilenos usam-no frequentemente. A gente vai almoçar al tiro? A expressão tem sua origem no antigo costume, que já não se usa, de atirar para o alto para avisar os camponeses a hora do almoço.

Huevón
Talvez seja a gíria mais usada no Chile. Utiliza-se para qualificar alguém de bobo ou estúpido; embora também possa significar amigo. Tem múltiplas derivações como huevear, que é sinônimo de desfrutar ou se entreter, mas também de chatear alguém. Sua origem está relacionada com a palavra huevo (ovo). É usado para nomear a zona genital masculina devido a semelhança física entre os testículos e este alimento. A maneira e o tom com que se diz determinam se a conotação é positiva e amistosa ou negativa e desqualificativa.

A la maleta ou ser maletero
Maletero é quem carrega malas. Porém, no Chile  maletero também é alguém que não respeita as regras do jogo em uma briga. Quem age à maleta tem más intenções e é traidor, suas verdadeiras intenções estão ocultas, como se estivessem guardadas em uma mala.

Dar cancha, tiro y lado
Significa ganhar facilmente, fazendo ostentação da superioridade frente ao rival. Desde a sua origem se da cancha, tiro y lado nas competições equestres, especialmente nas corridas chilenas, no campo.

Cortar las huinchas
Quando alguém deseja muito fazer alguma coisa, está que corta las huinchas. A palavra wincha, de origem quéchua, nomeia um cinto para segurar os cavalos. Cortar las huinchas evoca um ginete que espera o sinal de partida em uma carreira.

Darse vuelta la chaqueta
As pessoas que mudam de opinião repentinamente e de forma oportunista, viram a casaca. O dito se remonta à Guerra Civil de 1891, quando alguns derrotados passaram para o outro bando, mudando a casaca e o uniforme.

Irse a la cochiguagua
Significa viver sem o menor esforço, esperar que os outros façam o trabalho. Ou seja, é como ir no coche de guagua (carrinho de um bebê),-guagua vem do mapudungún e significa bebê. 

Hora de once
No Chile, a hora de tomar once (onze) é a hora do chá, adotando o costume ingles. A once consiste em beber chá ou café com sanduíches, ao redor das cinco da tarde. Já a tradição popular atribui este termo aos marinheiros que, no passado e de brincadeira, chamavam de once à aguardente, que em espanhol tem onze letras (aguardiente).

Marca Chancho
Para se referir a uma marca de pouco prestígio, desconhecida, se diz depreciativamente que é uma marca chancho (marca porco). Esta marca efetivamente existiu, e correspondeu a uns cigarros fabricados em Valparaíso no século passado.

Más perdido que el teniente Bello
Mais perdido do que o tenente Bello. As pessoas que estão mais perdidas do que o tenente Bello são aquelas muito desorientadas. O provérbio se origina em um fato real de 1914, quando o aviador Alejandro Bello desapareceu durante uma prova aérea e nunca mais foi encontrado.

Morir en la rueda
Morrer na roda. Morir en la rueda significa respeitar lealmente um segredo e se manter em silêncio. Esse ditado evoca a roda na qual torturavam os prisioneiros durante a Inquisição para que confessassem.

Ni chicha ni limoná’
Nem chicha nem limonada. Diz-se que alguém no es chicha ni limoná’, quando mostra indefinição, ambiguidade e fica em uma situação intermediaria, esperando pelo momento mais conveniente para se definir (em cima do muro). Chicha é um licor forte, de uva ou de maçã e limoná’ (limonada) é a inocente bebida de limão com açúcar.

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