Arte e Cultura

Literatura e Poesia

Escritores chilenos criam e recriam o mundo a partir de uma aldeia que os torna universal. Dois prêmios Nobel o confirmam.

martes, 27 de julio de 2010  
Pablo Neruda Pablo Neruda (Photo:El Mercurio)

Os escritores do Chile criam e recriam o mundo a partir de um país que foi narrado pela primeira vez por Alonso de Ercilla y Zuñiga, cronista espanhol do século XVI. Em sua principal obra, o poema épico "La Araucana" coloca o Chile em versos perfeitos hendecassílabos (de doze sílabas): “Chile, fértil provincia y señalada/ en la región antártica famosa/ de remotas naciones respetada/ por fuerte, principal y poderosa” (O Chile, província fértil e sinalizada/ na região da Antártida famosa/ de nações remotas respeitada/ por forte, principal e poderosa).

Quatro séculos depois, os poetas Gabriela Mistral e Pablo Neruda receberam o Prêmio Nobel de Literatura. O maior prêmio mundial das letras reconhece a voz da América Latina e os sonhos e valores mais profundos da humanidade no trabalho destes chilenos.

Da oralidade à escrita

Afirma-se frequentemente que o país foi inventado por um poeta, referindo-se a La Araucana, trabalho parcialmente publicado pela primeira vez em 1569, em Madri. O texto narra passagens da guerra entre os mapuchs e os conquistadores, descreve o caráter dos povos nativos e a natureza exuberante com que se deparou o autor.

Todavia, o primeiro não foi a escrita. Para o povo mapuche, que habitava estas terras antes da chegada dos espanhóis, a linguagem era de tradição oral, não escrita. A poesia era parte da oratória guerreira e dos ritos fúnebres ou religiosos. Desde a chegada dos europeus, se desenvolveu a literatura colonial, obra de espanhóis e crioulos ou nascidos no Chile.

País de Poetas

“Chile, país de poetas” diz um refrão popular. E os dois prêmios Nobel parecem confirmá-lo. Caso exista alguma dúvida, outros autores também contribuíram com as suas obras. Por exemplo, Vicente Huidobro (1893-1948), era parte da vanguarda europeia em Paris no início do século XX, também fundou o criacionismo junto com o poeta francês Pierre Reverdy. Propõe “Por qué cantáis la rosa, ¡oh poetas!/ Hacedla florecer en el poema” (Por que cantas à rosa, oh poetas! / Faça-a florescer no poema).

Nessa diversidade de autores, se destacam Nicanor Parra (1914), criador da antipoesia que incorpora a linguagem coloquial, a ironia e um tom informal em sua obra; e Gonzalo Rojas (1917), para quem a sensualidade e o erotismo são materiais frequentes em seus textos.

Os poetas que começaram a publicar suas obras na segunda metade do século XX ocupam seu próprio lugar. Enrique Lihn (1929-1988) e Jorge Teillier (1935-1996) são dois dos mais proeminentes.

Os poetas dos anos 60 fazem parte da "geração dizimada" pelo golpe de Estado e alguns sofreram a prisão e o exílio. Nos anos 80, sob a ditadura militar, surge a chamada “generacion NN” (geração anônima), uma alusão ao anonimato e à clandestinidade.

Nesses anos, apareceu uma potente voz poética feminina e feminista, ao mesmo tempo em que chega do sul a obra de poetas mapuche, que transitam da ancestral tradição oral ao que nomeiam com a palavra "oralitura”.

Narrativa

Os livros de Roberto Bolaño atualmente se encontram em livrarias de todo o planeta. A obra deste chileno, que morreu em 2003, tem sido particularmente popular na Espanha e nos Estados Unidos, onde obteve importantes reconhecimentos após sua morte. “Os Detetives Selvagens” e “2666” são os romances mais importantes, que reflete uma realidade da América Latina mais urbana e cerebral que a expressada pelos escritores do realismo mágico. 

Isabel Allende, destacada internacionalmente, autora de romances como “A Casa dos Espíritos”, “Eva Luna” e “Retrato em Sépia”, já vendeu mais de 35 milhões de cópias em todo o mundo.

As origens da literatura chilena se remontam a quatro séculos, até os cronistas das Índias. Nesses textos fundamentais está o testemunho de viajantes que, involuntariamente, estabeleceram as bases da prosa que deu origem à narrativa e ao ensaio do país. A primeira grande obra neste gênero foi publicada em 1644, seu autor foi o sacerdote jesuíta Alonso de Ovalle e se intitula “Histórica Relación del Reino de Chile” (Histórica Relação do Reino do Chile).

O livro “El cautiverio feliz” (O cativeiro feliz), escrito pelo crioulo Francisco Núñez de Pineda y Bascuñan em 1673, é considerado o primeiro romance chileno.

Ainda que “Recuerdos del pasado” (Lembranças do passado), de Vicente Pérez Rosales, constitua um marco literário no século XIX, a primeira geração de narradores chilenos é a crioula ou a de costumes. Seu mais notável expoente é Manuel Rojas (1896 - 1973), autor do romance “Filho de ladrão”.

A partir da geração de 50, o conto chileno novamente se torna relevante. José Donoso e María Luisa Bombal são dois dos seus principais expoentes. Há sinais surrealistas em suas obras, entre as quais se destacam “O Obsceno Pássaro da Noite” e “A Última Névoa”, respectivamente.
Os anos 60 foram o cenário de uma nova geração de narradores. Os temas urbanos, cosmopolitas e de compromisso social são usados agora pelos criadores, que os incorporam como protagonistas em suas obras. Antonio Skármeta e Poli Delano são seus referentes.

Desde os anos 70, o romance e os contos nacionais também passam por mudanças políticas e sociais, superando as limitações e a censura. Novos ventos estão soprando na última década. Novas obras e nomes que se unem à sólida tradição de escritores que tiveram seus primeiros balbucios quatro séculos atrás.

Luis Sepúlveda, Hernán Rivera Letelier, Ramón Díaz Eterovic, Gonzalo Contreras, Pedro Lemebel, Alejandro Zambra, Carla Guelfenbein, Marcela Serrano, Jaime Collyer, Pablo Azócar e Alejandra Costamagna são alguns dos destacados narradores chilenos atuais.