Música

O outro modo de falar de um povo tradicionalmente silencioso. Aqui o jazz é huachaca e a cueca é chora.

miércoles, 28 de julio de 2010  
Cueca Huachaca Cuecódromo (Photo:Javier Godoy)

No Chile, o huachaca é o tipicamente popular, o que está afastado da academia e dos estratos socioeconômicos altos. E o choro é a pessoa valente com graça, ousada. Porque o Chile soa em sua música. Uma maneira de ser que se escuta no folclore camponês, nas obras clássicas e nas variadas expressões urbanas populares.

A cueca é uma das mais importantes danças do Chile e as novas gerações a recriam se distanciando da rigidez tradicional. Portanto, a cueca é chora, popular e de Valparaíso. A partir da canção "Ay, Ay, Ay”, composta em 1913 por Osmán Pérez Freire, até a folkpunk juvenil, a música do país experimentou diferentes fases, com marcas indeléveis. A Nueva ola (Nova Onda), o Neo-folclore, a Nueva Canción Chilena, o Canto Nuevo, são alguns momentos memoráveis, aos que se unem a música de fusão latina, o pop, o jazz e o rock. Uma variedade de estilos, uma multiplicidade de vozes que expressam uma forma de sentir e de sonhar.

Uma canção para o mundo

Osman Perez Freire nasceu em 1880 e morreu em 1930. “Asómate a la ventana, / ay, ay, ay / paloma del alma mia” (Olhe pela janela, / ay, ay, ay / pombinha da minha alma), diz a letra de “Ay, ay, ay”, sua canção mais conhecida. Tema habitual no repertório dos grupos tradicionais foi interpretada por Plácido Domingo, Luciano Pavarotti e Nana Mouskouri. Pérez Freire foi um autêntico inovador, aberto às várias manifestações da tradição musical chilena e das latino-americanas, além dos novos ritmos de seu tempo como o fox trot.

Raízes para inovar

A música chilena encontra uma fecunda fonte de inspiração e inovação em suas raízes. O resultado são criações de tom local que alcançam um nível universal. Mauricio Castillo, conhecido como Chinoy, une a clássica guitarra acústica a instrumentos elétricos e a tecnologia da Internet, para dar vida à naturalidade da folkpunk. No mesmo caminho se encontra o cantautor Gepe. Por sua vez, quatro jovens mulheres formam o grupo Las Peñascazo, interpretando a cueca com popular ousadia.

Quando se trata de música pop, há outros grupos que surgiram nos últimos anos como Los Bunkers, Teleradio Donoso e Kudai, entre outros. Hip hop e reggaeton são outros estilos musicais que têm bastante adesão.

Folclore e boleros

O huaso chileno é o homem que vive e trabalha no campo, uma espécie de vaqueiro ou camponês. Na cidade, a palavra huaso é usada para definir uma pessoa um pouco lerda ou desinformada, tímida ou ignorante, alheia aos supostos avanços da vida urbana. Trata-se de um importante personagem na música do país no momento de cantar ou dançar a cueca, o baile nacional. Nas primeiras décadas do século XX, Los Cuatro Huasos foi o conjunto que interpretou “Ay, ay, ay” de Pérez Freire, e impôs um estilo que identificou a toada e o folclore com a tradição huasa patronal do campo chileno.

Entretanto, Los Cuatro Huasos eram da cidade, não do campo, e muito mais intérpretes que criadores. Logo incorporaram boleros e outros temas internacionais ao seu repertório. Lucho Gatica, um dos cantores mais conhecidos do Chile e de grande popularidade na América, seguiu a mesma linha. O tema La joya del Pacífico (A jóia do Pacífico), referindo-se ao porto de Valparaíso, é cantado por gerações como um verdadeiro hino nacional.

Neo folclore

Os anos 60 foram de grande atividade no cenário musical. A predominância de autores norte-americanos e de temas em inglês causou uma reação local. Desta forma surge o denominado neofolclore chileno, grupos e canções com raízes folclóricas que difundem e massificam a música feita no país.

No entanto, outros jovens cantores dão vida a La Nueva ola, cantando músicas norte-americanas em espanhol e criando as suas próprias canções.

Neste contexto, grupos e solistas fundamentais na história da música chilena dão os seus primeiros passos. The Ramblers, Eduardo Gatti e Los Blops, Los Angeles Negros, Los Jaivas, com influências do rock, misturando ritmos e instrumentos para criar obras que transcendem até hoje.

A nova canção chilena

Em oposição ao folclore acadêmico aparece a curiosidade, o talento e a vocação popular de Violeta Parra (1917-1967). Nos anos 50 já é reconhecida como a mais importante folclorista chilena por seu trabalho de resgate e divulgação da poesia e do canto camponês. O material da sua música é a alma mais autêntica do campo e da cidade. Sempre perto das raízes, cria sua própria obra, às vezes, com um espírito de experimentação, cria as anticuecas e em outras ocasiões, dá origem a canções de rara beleza e conteúdo.

Desse modo compõe Gracias a la vida, uma música de singular difusão em todo o mundo. Escritora, compositora, artista plástica, ceramista, escultora, Violeta expôs sua obra em 1964 no Museu do Louvre, em Paris, no Museu de Artes Decorativas, distinção inédita para a arte popular latino- americana -. Todo lo haces a las mil maravillas / sin el menor esfuerzo / como quien se bebe una copa de vino (Tudo que você faz é com perfeição / sem nenhum esforço /como quem bebe um copo de vinho), escreve seu irmão Nicanor, Prêmio Nacional de Literatura. A influência da família Parra nas artes do Chile se manifesta claramente nas novas gerações de criadores.

Um fato político familiar motiva Violeta Parra a escrever uma canção que será a base da Nueva Canción Chilena. Seu irmão Roberto é preso e ela escreve La carta, denúncia e protesto em um tom musical com claras influências de ritmos indígenas. Desde então, seus próprios filhos, Isabel e Ángel, juntamente com Patricio Manns e Rolando Alarcón se distanciam do neo folclore e constroem um caminho comprometido com as causas sociais. Criam a Peña de los Parra, local mítico de encontro da boemia progressista e revolucionária, às quais se somam Victor Jara, Quilapayún, Inti Illimani, Payo Grondona, Charo Cofré, Ameríndios e Tito Fernández, entre outros.

Canções que não se podem esquecer são as desses criadores. Te Recuerdo Amanda de Victor Jará; Valparaiso, de Osvaldo Rodrigues; La Cantata Santa Maria de Iquique, composta por Luis Advis e executada pelo grupo Quilapayún; La exiliada del sur, de Violeta Parra, são exemplos. Após o golpe militar, Víctor Jara foi assassinado na prisão e a maioria dos músicos chilenos teve que partir ao exílio.

A voz dos 80

Os músicos jovens que eram herdeiros e se achavam em dívida com o movimento da Nueva Canción Chilena permaneceram no país ou começavam a se formar na ditadura, desenvolveram o chamado Canto Nuevo. As Universidades e as peñas forneceram espaço para estes artistas, entre os quais se destacam os grupos de Santiago del Nuevo Extremo e Aquelarre, junto ao dueto Schwenke y Nilo e os compositores Eduardo Peralta e Patricio Valdivia.

No Canto Nuevo há fusão de diferentes estilos e influências, um trabalho especial nas letras das músicas que devem dizer o que não é permitido e também a presença de Congreso e de Los Jaivas, grupos que conseguiram permanecer ou regressar do exílio.

A voz dos anos 80 é roqueira e contestadora. O grupo de maior ressonância é Los prisioneros, criador de uma obra que consegue representar massivamente os jovens. Ao mesmo tempo, Eduardo e Roberto Parra, deram novo vigor à cueca popular urbana experimentado com o fox trot, como o fez Osmán Pérez Freire setenta anos antes, e criaram o jazz Huachaca.

Como se se fechasse um círculo, raízes, história e inovação se unem para manter viva a voz musical de um povo que não fala muito, mas canta.

Exílio e herança

Ricardo Villalobos, DJ chileno nascido na Alemanha e de pais exilados, mora na Europa com notável aceitação juvenil de seus ritmos minimal Techno, microhouse e de percussão latina. Sua obra é valorizada em seus dois mundos de origem, na Europa e na América Latina. Anita Tijoux, na França e DJ Mendez, na Suécia, cultivam o rap e o hip-hop.

No Chile, Angel Parra, neto de Violeta Parra, pega a tradição local e a funde com o jazz em sua banda Angel Parra Trio, ao mesmo tempo integra Los tres, juntamente com Alvaro Henríquez e Roberto Lindl, um grupo que resgata a cueca urbana e o chamado jazz huachaca, de Roberto e Eduardo Parra, irmãos de Violeta, expressão que define o tipicamente popular da cultura chilena.

Para ouvir música chilena pode acessar a rádio de EstoesChile.cl

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