Mitos e lendas: A magia do Chile

Uma flor no deserto, um navio fantasma ou uma sereia no mar austral. O imaginário do Chile não tem limites.

jueves, 29 de julio de 2010  
Laguna del Inca Laguna del Inca

O imaginário do mundo popular, especialmente de origem campesina, é reproduzido, recriado e transmitido através de contos e lendas tradicionais. Trata-se de relatos orais que passam de geração a geração ao longo de todo o território. Mitos e lendas expressam o pensamento mágico do Chile profundo, sendo as pessoas seus personagens principais.

Contos populares de norte a sul

Às vezes aconteceu, outras vezes foi um sonho ou fruto da imaginação. São os contos que em algum momento ouvimos e nunca esquecemos.

No Norte Grande é muito popular a Añañuca, uma lenda sobre a flor do deserto. No Norte Chico ainda se contam histórias de piratas e tesouros escondidos que recordam o lendário Sir Francis Drake. Na zona central, nos arredores de Santiago, é muito popular a Quintrala, uma mulher cruel e enfeitiçada.

No centro-sul, entre muitas outras de tipo campesino, é popular a lenda de La Laguna del Inca, um lugar encantado na cordilheira, que é o resultado de uma história de amor.

No sul, na Araucanía, há uma grande variedade de mitos e lendas mapuche, entre estas está La anciana dueña de la montaña (A anciã dona da montanha), que reflete o respeito aos idosos. No imaginário nacional se destaca a mitologia de Chiloé, com seus relatos sobre a Pincoya, uma sereia austral, e o Caleuche, um navio fantasma. No Chile insular, a Ilha de Páscoa tem sua própria mitologia de acordo a uma cosmovisão diferente à dos habitantes do continente. Entre suas lendas mais populares está o Make-Make, sobre a criação do mundo e El hombre pájaro (o homem pássaro).

La Añañuca

Añañuca era uma jovem que morava em Monte Patria, uma aldeia perto do rio Limarí. Nessa época se chamava Monte Rey, porque ainda estava sob o domínio espanhol. A bela Añañuca atraía a admiração dos jovens do povoado, mas nenhum deles tinha sido capaz de conquistá-la. Um dia chegou um mineiro bonito e enigmático que procurava um veio de ouro altamente cobiçado. Ao ver Añañuca apaixonou-se por ela e passou a viver em Monte Rey. E foi correspondido. Uma noite, o mineiro teve um sonho perturbador. Apareceu-lhe um duende da montanha que lhe disse exatamente onde estava o veio da mina que o tinha obcecado. Sem hesitação, ele saiu em sua busca, deixando Añañuca com a promessa de que voltaria.

Añañuca esperou dia após dia, mas o seu amor nunca mais regressou. A miragem o engoliu. A tristeza se apoderou de Añañuca que foi morrendo de amor, desolada. O povo de Monte Rey chorou por ela e a sepultou em um dia chuvoso. No dia seguinte, o sol aqueceu o vale e se encheu de belas flores vermelhas, em homenagem à jovem foram chamadas de Añañuca. Esta flor cresce até hoje entre Copiapó e o Vale de Quilimarí. Depois que o céu chora, o pampa se transforma no maravilhoso deserto florido.

Tesouros de piratas

O corsário Sir Francis Drake descobriu a baía de Guayacan em 1578. Por sua forma é conhecida como a baía da Herradura (ferradura), um lugar que foi refúgio para os piratas e corsários. Todos estes, especialistas em assaltar galeões espanhóis que transportavam tesouros produto de outros saqueios, da América à Europa. Diz a lenda que na baía de Guayacán foram enterradas incríveis jóias e que muitos morreram buscando-as.

Estas mesmas escavações tão cobiçadas foram a sepultura desses buscadores de tesouros. Segundo a lenda, um tesouro de Drake ainda estaria em uma caverna na Laguna Verde, na costa do que é hoje a região de Valparaíso. Nesse lugar teria um tesouro que nunca foi encontrado. Os pescadores, temerosos e ousados ao mesmo tempo, dizem que não se pode entrar nessa caverna, mas que se poderia fazê-lo a partir da cidade.

Um dos acessos estaria na rua Emeralda de Valparaíso. Conta-se que está protegido por um monstro de grande força, que sai de noite para capturar os caçadores de tesouros. Leva-os para a caverna e se encarrega de enlouquecê-los. Ele teria encantado uma jovem, e quem se atrevesse a liberá-la estaria exposto a um terrível sofrimento.

La piedra del león (A pedra do leão)

No tempo em que os indígenas habitavam a região de San Felipe, os pumas eram abundantes nos arredores. E por ali se encontra a pedra do leão, mais precisamente sobre uma colina chamada Yevide. Desde que existe memória se sabe que esses felinos são perseguidos e que estão em risco de extermínio. Diz a lenda que em Yevide vivia uma bela leoa com seus dois filhotes. Um dia a fêmea teve que deixar seus filhotes dormindo ao lado de uma pedra enorme para ir em busca de comida. Quando ela voltou da caça os pequenos não estavam.

Em sua ausência, foram levados por alguns arrieiros. A mãe procurou-os desesperadamente e sem descanso, mas não teve nenhum resultado. À noite começou a chorar desconsoladamente ao lado da pedra e se ouviam seus rugidos de lamentação. Diz-se que de todos os lados se escutava seu lamento e que não era somente o grito de um animal ferido. A partir do amanhecer do dia seguinte nunca mais se pôde ver um só puma neste lugar, todos desapareceram do morro Yevide. E nas noites de inverno, as pessoas escutam o gemido da leoa. É a alma dela, dizem, que ainda está reclamando os filhotes deixados na pedra.

A Quintrala

Tinha o cabelo vermelho como o quintral, por isso a chamavam de Quintrala. Seu nome era Catalina de los Rios y Lisperguer. Bela e extravagante. Figura entre os criminosos mais temidos do século XVII. Em seu rancho perto de La Ligua e nos arredores deixou uma lenda de terror e lhe atribuíam pactos com o diabo. Desenfreada, foi indomável para o seu marido, que viveu pouco tempo e se tornou cúmplice na sua perversidade.

Nesta zona se dizia que maltratava os índios da fazenda, que tinham de fugir para as montanhas. A Quintrala presidia os castigos sem comover-se frente ao sofrimento alheio. Acusada por seus crimes, foi capturada e julgada pelo comissário de Justiça, que a encontrou culpada de parricídio e do assassinato em massa de seus serviçais. Foi levada a Santiago, onde a sua astúcia e dinheiro influenciaram para dilatar o processo.

Entre os pactos diabólicos que lhe são atribuídos está o que fez para ganhar o amor do frade que a tinha casado. O padre resistiu ao assédio e se autoflagelava, até que fugiu para o Peru evitando a sedutora bruxa. Só voltou quando soube de sua prisão e de suas doenças. Nunca confessou seus pecados mortais.

Laguna del Inca

Quando os incas dominaram o Chile pré-colombiano até o Maule, realizavam seus rituais e cerimônias religiosas na Cordilheira dos Andes. Era o lugar ideal para os que se consideravam filhos do sol. Segundo a lenda, o inca Illi Yupanqui se apaixonou pela bela princesa Kora-lle. Eles decidiram se casar em um pico às margens de uma lagoa. Após a cerimônia nupcial, a princesa devia descer pela ladeira da colina toda enfeitada com sua roupa e jóias vistosas. O caminho era estreito, coberto com pedrinhas que fizeram com que a princesa escorregasse provocando sua queda no precipício.

Alertado pelos gritos, o inca começou a correr, mas quando chegou a seu lado já era tarde demais. Sua amada princesa estava morta. Atormentado pela tristeza, decidiu que o corpo da princesa seria depositado nas profundezas da lagoa. Quando foi submergida, a água magicamente se tornou de cor esmeralda. A mesma cor dos olhos da princesa. Desde então, se diz que a Laguna del Inca está encantada e, às vezes, em noites de lua cheia, a alma de Illi Yupanqui ainda vaga na superfície da lagoa localizada em Portillo. E se escutam os lamentos do Inca recordando sua amada.

La anciana dueña de la montaña (A anciã dona da montanha)

Nas montanhas arborizadas da Araucanía, um homem que estava à procura de seus animais se perdeu. Não os encontrou. A noite chegou sem que ele tivesse encontrado o caminho de volta para casa, então decidiu procurar um lugar no monte para dormir. Quando se acomodava para descansar, repentinamente viu um clarão no meio do bosque. Era uma fogueira e ao redor do fogo dançava uma anciã. Ele caminhou em sua direção. Era Kvpvka, a dona da montanha, que tinha uma casa feita a partir de materiais recolhidos nos bosques do monte. Tinha de tudo, batatas, ervilhas, milho.

O homem cumprimentou-a com muito respeito, em seguida, tornaram-se amigos e se casaram. Ao saber que o homem era pobre, viúvo e que tinha quatro filhos, a anciã lhe disse: "Se você tem filhos, traga-os, aqui há de tudo". Então o homem levou os seus filhos, comeram e se alojaram na casa de Kvpvka. Uma noite, um dos meninos riu dos pés da velha, “Olhem, a velhinha tem apenas dois dedos." A mulher ficou furiosa, chutou sua casa e tudo desapareceu: o fogo, a riqueza e a Kvpvka. O homem desesperado devolveu seus filhos à antiga casa, aconselhou-os contra a zombaria e regressou à montanha para continuar vivendo com a Kvpvka.

La Pincoya

Um dos mitos mais populares entre os pescadores de Chiloé é o de uma sereia chamada Pincoya. Às vezes, dizem, é acompanhada por seu marido, o Pincoy. Raramente abandona o mar para adentrar-se em rios e lagos. Esta ninfa do mar fecunda os peixes e mariscos sob as águas, por isso a abundância ou a escassez de alimentos dos pescadores dependem dela. Quando a Pincoya aparece na praia dançando com os braços estendidos e olhando para o mar, os pescadores se alegram porque essa dança é o anúncio de pesca abundante. Se dança olhando para o litoral é mau agouro, pois afastará os peixes. Mas o mau agouro pode ser bom para os outros, porque a Pincoya leva abundância aos mais necessitados.

A alegria, mesmo em situação de pobreza, atrai a Pincoya, por isso os chilotes cantam, dançam e fazem curantos para que ela os veja e ajude. Parte do mito conta que a Pincoya nasceu na bela lagoa Huelde perto de Cucao; que é uma mulher muito bonita, de pele branca ligeiramente bronzeada, cabelos dourados e, da cintura para baixo, tem a forma de um peixe. Algumas noites, assobia ou canta enfeitiçadas canções de amor que ninguém consegue resistir.

O Caleuche

Um navio fantasma navega pelos mares de Chiloé. É o Caleuche e a sua tripulação composta por feiticeiros. Nas noites escuras suas velas avermelhadas se iluminam e quando quer se esconder provoca um denso nevoeiro. Nunca percorre o arquipélago à luz do dia, porque se torna invisível ou se transforma em uma rocha. E sua tripulação se transforma em lobos do mar ou alcatrazes. Qualquer pessoa que olhe para o Caleuche pode ficar com a boca torta e com a cabeça virada para trás por causa de bruxaria. No entanto, ao navio podem subir os náufragos e os afogados que podem ver as cidades do fundo do mar e seus tesouros, mas não divulgar o que viram. Este é o caso da chalupa que partiu de Chonchi, dirigido pelo filho de um respeitável habitante do lugar. O barco nunca mais voltou.

Quando o pai soube, limitou-se a sorrir de uma maneira estranha que guardava uma revelação: o filho se encontrava a salvo à bordo do Caleuche. Desde esse dia, o pai começou a enriquecer em sua atividade de comerciante, e pelas noites se escutava o arrastar de correntes ao redor de sua casa: era o Caleuche que desembarcava furtivamente grandes quantidades de mercadorias, revelando as relações ocultas entre o empresário e o navio fantasma.

A criação do mundo

Em Rapa Nui, Ilha de Páscoa, conta-se que quando não havia nada na terra e tudo estava por ser feito. Ocorreu então uma disputa entre os espíritos. Um poderoso espírito que vivia no ar se impôs frente aos mais fracos que se rebelaram. O poderoso os transformou em montanhas e vulcões. Aos que se arrependeram os transformou em estrelas. Para habitar a terra, este espírito transformou um espírito que era seu filho em homem e o lançou à terra que ao cair ficou aturdido. A mãe do jovem sentiu tristeza e quis observá-lo e para isso abriu uma pequena janela no céu.

Por vezes, através dela assoma seu rosto pálido. O poderoso pegou uma estrela e a transformou em mulher para que acompanhasse o seu filho.
Para chegar ao jovem ela teve que andar com os pés descalços, mas não se machucou porque o poderoso ordenou que crescessem ervas e flores no seu caminho. Ela brincava com as flores e quando as tocava se transformavam em pássaros e borboletas. E a erva que seu pé tocava ia se transformando em uma selva gigantesca. O casal se reuniu e encontravam que o mundo era bonito. Durante o dia, o poderoso os observava por uma janela redonda, e foi o sol. De noite, era a mãe quem olhava pela janela, e foi a lua.

A lenda de Make-Make

Conta a lenda que depois de haver criado o mundo, o Make-Make sentiu que faltava algo. Então pegou uma abóbora que continha água e, surpreso, percebeu que olhando para a água via o seu rosto refletido. Make-Make cumprimentou sua própria imagem e notou que nela havia um bico, asas e penas. Enquanto observava o seu reflexo, viu um pássaro pousado em seu ombro. Encontrando grandes semelhanças entre sua imagem e a do pássaro, juntou seu reflexo com o do pássaro, criando assim o seu primogênito. No entanto, Make-Make quis criar um ser que tivesse sua imagem, que falasse e pensasse como ele.

Então, primeiro fecundou as águas do mar e em seguida apareceram os peixes. Mas o resultado não era o esperado. Logo fecundou uma pedra na que havia terra colorada, e dela surgiu o homem. Make-Make se sentiu feliz por ter criado o homem, a criatura que ele desejava, mas ao ver o homem solitário, criou também a mulher. Make Make não esqueceu sua imagem de pássaro levou as aves até os motu ou ilhotas na frente de Rano Kau para celebrar o culto de Tangata Manu, o homem-pássaro.