Ciência e tecnologia no Chile

O rol decidido do Estado, o investimento privado e o talento profissional prestigiam o trabalho científico do país.

martes, 03 de agosto de 2010  
Especialistas comprometidos (Photo:Laboratorio Bagó)

- Software feito no Chile

Um trabalho dirigido por duas cientistas chilenas teve uma singular repercussão internacional no começo de 2009. Contribui fundamentalmente ao avanço da terapia para aliviar o mal de Niemann-Pick tipo C, uma estranha e cruel doença neurodegenerativa que silenciosamente provoca a morte de crianças.

Após publicar os resultados em revistas de repercussão global, Alejandra Álvarez e Silvana Zanlungo se propuseram um novo objetivo: a partir de Santiago contribuir no tratamento dos males de maior importância como o Alzheimer. As especialistas asseguram que no Chile existe capacidade científica e intelectual para consegui-lo.

Esta afirmação de Álvarez e Zanlungo é muito mais que uma expressão de bons desejos. Dezenas de pesquisas recentes apoiam-nas. Por exemplo, as que permitem avançar na cura de queimaduras, no diagnóstico e terapias para o câncer e em vacinas para aliviar casos de melanoma.

Já o investigador Pablo Valenzuela fez uma contribuição transcendental ao desenvolver uma vacina contra a hepatite B e ao descobrir o vírus da hepatite C. Além disso, esteve na liderança da equipe internacional que conseguiu clonar e sequenciar o genoma do HIV. Previamente, havia se destacado pela criação da insulina para diabéticos a partir de cultivos de levedura.

Por essas contribuições Valenzuela recebeu o Prêmio Nacional de Ciências Aplicadas e Tecnológicas, em 2002. Em sua premiação mais recente, o mesmo galardão foi outorgado a José Miguel Aguilera pelo aporte à engenharia gastronômica e à pesquisa de alimentos funcionais, como o leite enriquecido, os probióticos e os antioxidantes.

O sismólogo Edgar Kausel, também recebeu o mesmo Prêmio Nacional pela elaboração da norma chilena de desenho de edifícios. A norma de Kausel alcança grande transcendência quando se considera a qualidade sísmica do país. Basta lembrar que a cidade de Valdivia, em 1960, resistiu ao terremoto mais violento que já foi registrado no planeta, com uma intensidade de 9,6 graus.

De similar valor são os Prêmios Nacionais em Ciências Exatas. Destacam-se os dois últimos, outorgados a Miguel Kiwi e a Rafael Benguria. O primeiro por suas pesquisas baseadas na física dos sólidos e o seu trabalho Exchange Bias Theory. E Rafael Benguria, reconhecido por suas publicações como a do jornal Annals of Mathematics e por suas indagações para conhecer como a frequência da vibração determina propriedades geométricas dos corpos.

Desafio

O objetivo fundamental da economia chilena é transitar de um modelo produtor e exportador de recursos naturais,  a um que integre vantagens competitivas através de avanços tecnológicos próprios. Para alcançar a meta é essencial a promoção do empreendimento e a inovação.
Junto com o investimento em tecnologia das grandes empresas se somam a formação de capital humano, para a academia e para a produção, de modo que a qualificação científica transcenda as gerações.

Por isso o Estado do Chile definiu como tarefa primordial o apoio à ciência, à tecnologia e à inovação, e duplicou o investimento público de 240 milhões de dólares em 2005 a 525 milhões de dólares em 2009.

Em 2010, ano do Bicentenário do país, espera-se contar com 17 centros de pesquisa de categoria mundial ao longo do país e com a instalação do instituto alemão Fraunhofer, que desenvolverá pesquisas em energias renováveis, nanobiotecnologia e aquicultura.

Para esse ano, e de acordo com o documento “70 Histórias da Organização e da Ciência”, também já deverão ter sido criados 27 consórcios tecnológicos empresariais cujo investimento alcançará os 9,5 milhões de dólares em equipamentos científicos.

Apoio à ciência

Com uma sustentada política de apoio ao desenvolvimento científico, diferentes agências estatais dão bolsas de estudo e recursos que paulatina e substancialmente vão sendo incrementados. Com o mesmo espírito, se materializaram programas de pesquisa associativa para abordar projetos de maior envergadura e complexidade, e já foi anunciada a busca de incentivos tributários para promover o investimento privado em pesquisa e desenvolvimento.

A Comissão Nacional de Investigação Científica e Tecnológica - Conicyt - cumpre um importantíssimo papel. Há mais de 40 anos que esta instituição do Estado apoia a criação de capital humano e o reforço da pesquisa de excelência nos âmbitos do conhecimento que têm maior impacto no progresso do país.

Conicyt dispõe de um sistema integral de programas para alunos de escolas, bolsas de estudos de pós-graduação no Chile e no estrangeiro, bem como recursos para pesquisas a nível local. Entre 2006 e 2009 aumentaram em 120% os fundos destinados a desenvolver e fortalecer o Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação. Em 2009 os fundos somaram 250 milhões de dólares.

No fortalecimento da base científica e tecnológica, esses fundos cresceram 54% desde 2005, enquanto que para o desenvolvimento de capital humano o orçamento se incrementou 490%, até chegar a 93 milhões de dólares no mesmo período.

Logo que assumiu o seu cargo, a Presidente Michelle Bachelet encomendou ao Conselho Nacional de Inovação para a Competitividade o desenho de uma estratégia nacional.

Após consultar com especialistas, o Conselho construiu um mapa dos 11 setores produtivos, ou clusters, consolidados e emergentes, com mais e melhores oportunidades para a década vindoura.

Depois, definiu sua atuação nas áreas fundamentais da estratégia -capital humano, ciência e inovação empresarial- e a sua organização para “cumprir as tarefas de forma oportuna e harmônica, tendo como objetivo final que o setor privado maximize seu potencial”.

Por sua parte, o Congresso Nacional discute o funcionamento permanente da sua qualidade institucional vinculada à inovação; um projeto de lei que, dentre outros objetivos, tenta fazer com que os recursos nesta área não dependam anualmente do orçamento da nação.

Um terceiro ator crucial é a Corporação de Fomento da Produção – Corfo - agência de desenvolvimento econômico estatal, que contempla mais de 50 linhas de apoio para as empresas e para os projetos nacionais idôneos, através de seus escritórios em todo o país e de suas representações na Europa, nos Estados Unidos e na Oceania.

Durante a comemoração de seu 70º aniversário no começo de 2009, a Corfo anunciou a entrega anual de mais de 700 milhões de dólares para subsídios e créditos. No balancete de sua gestão anterior, destacou o atendimento a 80 mil empresas e o investimento de 200 milhões de dólares para capital de risco, o que facilitou a criação e o desenvolvimento de negócios inovadores.

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