Festas tradicionais do Chile

Sobram motivos históricos, religiosos, gastronômicos e culturais nas celebrações para as quais estão todos convidados.

martes, 03 de agosto de 2010  
La Tirana La Tirana (Photo:TurismoChile)
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Um casal campesino do sul pisa as uvas alegremente na festa da vindima. O sol do norte rebota sobre coloridas roupas, instrumentos musicais e máscaras de uma diablada, o baile carnavalesco que anima a festa de La Tirana.

Na Ilha de Páscoa ou Rapa Nui, a festa Tapati é lúdica e mágica. No centro do país se celebra Cuasimodo, na que um sacerdote católico leva a comunhão aos doentes, escoltado por ginetes tocados com um lenço. Em Chiloé, a solidária minga celebra a construção ou o traslado da casa de um vizinho.

Não faltam motivos, cada setor produtivo tem um em diferentes lugares e datas. Às festas do milho, da cereja, da chicha ou o festival da melancia se somam as festas gastronômicas com frutos do mar e da terra, brincadeiras populares e canções.

É uma grande diversidade de festejos, profanos ou religiosos, ao redor de uma celebração principal: as Festas Pátrias que, durante vários dias, comemoram a Independência do Chile ao ritmo da cueca, a dança nacional, e do brinde com vinho tinto, chicha e empanadas.

Centenas de milhares de pessoas participam em todo o território destas festas que recebem também a visita de turistas de todo o mundo.

Celebrações típicas

Festa Tapati de Rapa Nui

Com a pele como suporte como se fosse a tela de um quadro, os corpos pintados são obras de arte em movimento na ilha de Páscoa. Trata-se da festa Tapati realizada em fevereiro. Após as competições juvenis de natação e de canoagem em pequenas embarcações e flutuadores de totora, elegem uma rainha. Para essas competições se fazem alianças para preparar as roupas típicas, cantos e danças; e compartilham relatos transmitindo oralmente seus mitos e lendas. A destreza física está na prova do haka pei, quando os jovens mais ousados se lançam em troncos de bananeiras a grande velocidade pela pendente de um cerro. A pintura do corpo, denominada takona, é a principal característica da atividade. Os insulanos competem se pintando com pigmentos naturais e símbolos originários.

Carnavalón

Também realizado em fevereiro em San Miguel de Azapa, Putre e Socoroma. Consiste em um cerimonial para desenterrar de modo figurativo a Ño Carnavalón. Símbolo da alegria, da fertilidade e da fortuna. Este personagem e seu carnaval atraem milhares de habitantes dos povoados do altiplano. É uma festa tradicional mestiça que se celebra 40 dias antes da quaresma católica, para ressuscitar o legendário personagem mítico que augura felicidade todo o ano. Trata-se, ao mesmo tempo, de um cumprimento à pachamama (a mãe terra) e à tata inti (o pai sol, ambos em línguas nativas), com música, danças e frutos da zona que prometem abundância.

Semana Valdiviana

Em fevereiro existem outras festas. No sul do Chile, na zona de Los lagos e bosques milenares, se festeja a fundação da cidade de Valdivia. "No rio Calle-Calle a lua está se banhando”, diz uma música ressaltando a beleza do entorno. Para comemorar o fato ocorrido em 9 de fevereiro de 1552, dezenas de embarcações dão vida a uma perseguição fluvial, que cativa valdivianos e visitantes que chegam de outros rincões do Chile e do estrangeiro. As naves enfeitadas concorrem a um prêmio para a mais chique e esse é o momento perfeito para coroar a rainha da beleza. Um espetáculo de fogos artificiais encerra a festa, enquanto nas margens do Calle-Calle se desfrutam de apresentações artísticas, gastronomia e cerveja, rememorando a influência cultural dos imigrantes alemães que povoaram a zona desde o século XIX.

Festas da vindima

O prestígio do vinho chileno é celebrado de modo especial na zona central do país. Os preparativos começam com a chegada do verão e os festejos culminam nas últimas semanas de março. A festa da cidade de Curicó é a mais antiga e começa com uma cerimônia religiosa para abençoar os primeiros mostos e dar passagem aos carros alegóricos. A vindima também elege a sua rainha, que é pesada em garrafas de vinho em uma romana ou balança, enquanto se realiza a competição de pisadores de uva, com equipes que disputam sobre as uvas até convertê-las em suco, durante 10 minutos. As palmas e os gritos de incentivo acompanham os movimentos, às vezes engraçados, mas sempre festivos.

Festas da cultura

Abril é o mês das festas organizadas pelo Conselho Nacional da Cultura e das Artes, denominadas Chile+Cultura. São atividades cidadãs em todo o país, aproximando a cultura às pessoas e abrindo espaços para a difusão das obras dos artistas. Músicos, poetas, pintores, cineastas, atores e dançarinos mostram seus trabalhos a públicos massivos.

Ano novo indígena

Os povos nativos aymara, quechua, rapa nui e mapuche possuem o seu próprio calendário ancestral. Para eles, o ano novo começa com o solstício de inverno e se celebra na noite de 24 de junho. Quando termina a colheita nos campos, a terra deve descansar, ser preparada para a semeadura e renovar a sua fertilidade. É um novo ciclo de vida e as culturas nativas agradecem a natureza. We Ttripantu, que significa "nova volta ou regresso do sol", é a festa que os mapuche celebram nas zonas rurais do sul, na praça principal de Temuco e no cerro Santa Lucía (ou Huelén, sua denominação original) em Santiago.

Festa de San Pedro

Segundo a crença católica, no dia 29 de junho, pescadores, mergulhadores, mariscadores e trabalhadores do mar comemoram o seu santo padroeiro – São Pedro. A bordo de um barco rodeado por outras embarcações pequenas, a figura do apóstolo recebe os pedidos para que interceda pela pesca abundante, boa saúde e por um mar benevolente. Um numeroso público que vem das cidades  e turistas estrangeiros compartilham desta festa. A celebração inclui uma missa acompanhada de danças. As oferendas são frutos do mar e ferramentas de trabalho. O santo preside sua festa em um altar e é passeado por ruas e baías. Do mar, soam as sirenes das embarcações reverenciando a sua passagem.

Festa de La Tirana

A Tirana é um pequeno povoado na Região de Tarapacá perto da capital local, Iquique. Mas a festa que é realizada lá transcende o povoado, se tornando a mais célebre do Chile e visitada por peregrinos e turistas. Entre 12 e 17 de julho de cada ano, dançarinos e músicos dão vida à diablada, dança carnavalesca para expulsar os demônios. O corpo de dança, com roupas e máscaras inquietantes, se move ao ritmo de tambores e flautas. O passo é marcado com um apito pelo caporal ou capataz da confraria, enquanto a atividade mostra o sincretismo religioso e cumprimenta também a virgem del Carmen. Descendentes de atacameños, kunzas, aimaras e outros povos nativos chegam ao santuário em peregrinação pagando promessas ou favores concedidos pela padroeira católica. No templo se oferecem missas, enquanto no entorno há artesanato, comidas e dança que não se detêm durante todo o dia.

Carnavais de inverno

O frio inverno do extremo sul sobe sua temperatura com festas e carnavais. Em julho se realiza em Puerto Williams, a cidade mais austral do mundo, a Festa da Neve. Todos participam desta festa sejam pessoas do lugar sejam turistas. No mesmo mês, Punta Arenas organiza o carnaval chamado Invernada na Patagônia. Carros alegóricos e bandas percorrem o centro da urbe, várias candidatas competem pelo cetro de rainha e os fogos artificiais acendem a noite de encerramento junto ao estreito de Magalhães.

Festas pátrias

No Chile, o dia nacional é 18 de setembro e serve também para antecipar a primavera nas fondas ou ramadas, lugares provisórios que acolhem tabernas igualmente ocasionais, que oferecem comidas típicas, empanadas, chicha e vinho tinto, onde também se dançam cuecas e cúmbias. Junto com a comemoração da primeira junta de governo de 1810, o dia 19 também é festivo, com motivo das glórias do Exército, com todas as ramas uniformizadas desfilando nas principais cidades. As casas põem a bandeira nacional, as crianças brincam com pipas, com piões e com bolinhas de gude, se compete na rayuela (jogar o tejo sobre uma linha) e no pau de sebo. Realizam-se corridas à chilena, quer dizer, com ginetes correndo sem sela, agarrados da crina, e nas medialunas há rodeios.

Festa da virgem de Andacollo

O cobre, a principal riqueza do Chile, é protagonista de uma mostra da religiosidade popular. Andacollo, localidade da Região de Coquimbo, foi um assentamento da cultura El Molle, de influência inca, que desenvolveu a agricultura e a exploração do mineral. Em língua quéchua, "anta" significa cobre e "coya", soberana. De aí que a virgem de Andacollo seja venerada como a rainha do cobre. Muito concorrida por nacionais e estrangeiros, a atividade se celebra a cada ano entre 24 e 26 de dezembro com danças e promessas à padroeira.

Natal

No Chile, a cada 24 de dezembro, se recorda o nascimento de Jesus com uma ceia familiar, além de pan de páscoa, um tipo de pão com frutas cristalizadas, e cola de mono, uma bebida que mistura aguardente, leite, açúcar, café e canela. É uma festa dedicada especialmente às crianças, que recebem os presentes do Viejo Pascuero, denominação que se dá no país a Santa Claus ou Papai Noel. Os presentes aparecem após a meia-noite debaixo de uma árvore que está enfeitada com luzes e figurinhas que simulam velas e neve, devido à origem europeia da festa. Nos pés da árvore, é costume instalar um presépio, a representação com figuras do nascimento do messias católico.

Ano novo

O dia 1 de janeiro é recebido no Chile com espetaculares festivais pirotécnicos em diferentes cidades do país. Os fogos artificiais mais tradicionais são os do porto de Valparaíso, admirados a partir da meia-noite de 31 de dezembro por milhares de pessoas que procuram o melhor mirante nos cerros da cidade. Chilenos e estrangeiros se abraçam, bebem champanha, se desejam prosperidade e vários praticam rituais próprios de superstição. Alguns comem lentilhas, outros escrevem o mau do ano velho em um papel que logo queimam e outros passeiam com malas pelo bairro como augúrio de que viajarão durante o ano. Também aparecem os que usam prendas especiais para a ocasião.

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