Puerto Williams, no fim do mundo

No último território da Patagônia, um vibrante povoado é soberano e guardião de um dos pontos mais belos do Chile.

miércoles, 04 de agosto de 2010  
Puerto Williams Puerto Williams (Photo:Jorge López)

As quase duas mil pessoas que moram na última grande cidade do Chile compartilham uma ancestral tradição. Suas raízes provêm dos yaganes, habitantes originários da zona que há 8 mil anos desafiavam com suas canoas o clima inclemente e frio da ilha Navarino e os canais da Terra do Fogo.

Localizado na margem norte da Ilha Navarino e frente ao Canal Beagle, é considerado o povoado mais austral do mundo. Atualmente possui coloridas casas onde todas as pessoas se conhecem e dispõem de bons serviços de abastecimento.

A insularidade e as distâncias mantiveram a cidade como um ponto de difícil acesso. Somente se pode chegar de teco-teco ou navegando de Punta Arenas, porém, nos últimos tempos se tornou muito popular entre os amantes da natureza.

E é exatamente a distância o que tem conservado a salvo um dos valores mais importantes de Williams: sua natureza. Enormes montanhas nevadas, florestas de lengas e uma biodiversidade surpreendente se misturam com caiaques, navegações em veleiro, trekking ou escalada, tornando a cidade um ponto referencial de uma grande aventura nos confins do mundo.

Atrações da cidade

O museu Martín Gusinde possui grandes ilustrações e relatos tradicionais da desconhecida cultura yagán, junto com testemunhas dos primeiros colonos que chegaram à zona atraídos pela febre do ouro. Fenômeno mineiro na Terra do Fogo durante o século XIX. É uma das mostras mais completas e ilustrativas sobre a ilha Navarino.

O mascarão de proa de um barco descansa perto do centro de Williams. Segundo Luis Alberto Prado, trata-se do Yelcho, embarcação que foi comandada pelo piloto para realizar o resgate de Sir Ernest Shackleton e dos sobreviventes do Endurance em 1916. O resgate foi realizado 10 meses depois de o Endurance ter naufragado devido ao gelo antártico. Uma das epopéias mais impressionante de todos os tempos. O Yelcho é Monumento Nacional.

Atrações próximas

Somente dois quilômetros separam a Vila Ukika, último povoado yagán, de Puerto Williams. É um setor humilde, mas de grande raiz cultural. Possui pequenas casas de madeira ladeadas por um rio e por florestas. Em uma das casas mora dona Cristina, a última yagán de sangue puro. Porém, todos os habitantes da Vila se sentem verdadeiros herdeiros da antiga etnia. O visitante deve ir a Kipa Akar ou à casa da mulher, que está no centro da vila, onde vendem artesanato próprio do lugar.

O parque etnobotânico Omora é um ponto ideal para os amantes do saber científico. Também é um lugar especial para o mundo investigativo, devido às florestas em miniatura de líquenes e musgos. Encontra-se somente a 4 km a oeste de Williams. Trata-se de uma reserva privada de 40 hectares, integrada por universidades norte-americanas e chilenas.

No recinto há uma trilha que leva os visitantes acompanhados de um guia para o reconhecimento do ecossistema local durante 90 minutos. É impressionante a análise minuciosa de árvores cheias de musgos e líquenes da Ilha Navarino, que compõem de 5% a 7% do total mundial, cifra que a levou a ser considerada a Amazônia da microflora.

Apesar de a caminhada mais austral do mundo estar sendo operada há pouco tempo, já adquiriu uma grande fama entre os amantes da aventura. Com alturas que superam os mil metros, as montanhas da ilha Navarino são presença permanente e suas formações parecem uma mandíbula com gengivas de neve.

O trekking a suas bases demoram de 3 a 4 dias, segundo o estado físico e a paciência do caminhante. Há que ter cuidado com a variabilidade climática da zona. Os fortes ventos patagônicos e as baixas temperaturas são a tônica de uma das paisagens com menor presença humana nesta zona.

A rota total de 53 km transpassa primeiro as florestas de lenga intermediárias para dar passo à morena - acumulação dos fragmentos de rocha transportados pelo gelo glacial -, à neve e a belos picos. Um bom conselho é pedir a companhia de guias locais.

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