Do New York Times

Reconhecido economista Jeffrey Sachs no New York Times: ‘O Chile é importante’

"Reformas que marcam uma pauta e que provavelmente se tornarão uma ponte econômica, comercial e financeira entre a China e a América Latina”, escreve o Assessor Especial da ONU e o Diretor do Earth Institute da Columbia University de Nova York. À continuação apresentamos o artigo completo sobre sua recente visita ao Chile, publicado no prestigioso jornal norte-americano.

viernes, 05 de noviembre de 2010  
El reconocido economista Jeffrey Sachs elogia a Chile: "Un país con poder de acción". El reconocido economista Jeffrey Sachs elogia a Chile: "Un país con poder de acción".

Publicado no New York Times
Por Jeffrey D. Sachs
 
SANTIAGO, CHILE – O emocionante resgate dos 33 mineiros chilenos mostrou um país com poder de ação. Foi a segunda crise do Chile depois do mega-terremoto que açoitou o sul do país em fevereiro, e em ambos os casos a nação se uniu em busca de uma resposta rápida e eficaz.
 
O Chile se encontra em uma etapa de recuperação depois dos desastres, demonstrando novamente que os países podem, em algumas ocasiões, aprender de seus trágicos erros. Consideremos, por exemplo, como a Alemanha mantém um nível de prudência fiscal 87 anos após sua infame hiperinflação.
 
Em uma recente visita a Santiago, vi pessoalmente como o Chile tem aprendido algumas profundas lições de moderação, cooperação e inovação depois de uma época desastrosa de extremismo político e da ditadura militar nos anos 1970 e 1980.
 
O Chile é importante. É a economia mais competitiva da América Latina, a mais alta no ranking anual de competitividade do Fórum Econômico Mundial (neste ano está na 30ª posição a nível mundial, e muito mais à frente de qualquer um dos seus vizinhos). É uma das economias mais ricas da região, com uma renda per capita superior à da Argentina e à do Brasil. Tem reformas que marcam uma pauta e que provavelmente se tornarão uma ponte econômica, comercial e financeira entre a China e a América Latina.
 
Nestes dias fica bastante claro que qualquer viagem saindo dos Estados Unidos em direção a um mercado emergente está destinada a nos levantar o ânimo. A política norte-americana está mais deprimente que nunca, cheia de mediocridades repetindo estupidezes sobre cortes de impostos enquanto a economia se afunda cada vez mais em dívidas.

 
Entretanto, a minha viagem ao Chile foi especialmente prazenteira por três razões. A primeira é pessoal: aceitar o convite de um premiado ex-colega, o presidente Sebastián Piñera e o de um ex-estudante e co-autor, o ministro da Fazenda chileno Felipe Larraín.
 
A segunda foi ver uma economia que funciona. Apesar do devastador terremoto de fevereiro, um dos mais poderosos na história, e uma forte queda depois da crise financeira de Wall Street em 2008, a economia do Chile está crescendo rapidamente e parece que vai continuar aumentando pelo menos 6% ao ano durante a próxima década.
 
Contudo, a terceira razão também não deixa de ser interessante: ver um sistema político que funciona e, sem medo de ser repetitivo, após um devastador colapso.
 
O Chile passou pela mortal agonia do brutal golpe militar de Augusto Pinochet em 1973, em uma sociedade que havia sido feita em pedaços por extremismos da esquerda e da direita. Foram dezessete anos de uma feroz ditadura militar. As melhorias econômicas durante os últimos anos do governo militar não puderam curar por si mesmas a profunda ferida de uma sociedade dividida.
 
A partir de 1990, o que os chilenos de todos os setores reconheceram foi o valor social insubstituível da moderação, da confiança, do respeito pelo conhecimento e pela busca da verdade na gestão pública. Já nos Estados Unidos, ao contrário, a propaganda política se torna cada vez mais extrema. A endemonização da direita de Barack Obama como um socialista estrangeiro e islâmico, joga cinicamente com os fogos do ódio. Hoje os chilenos sabem que esse é o caminho mais curto para a ruína.
 
Nas últimas duas décadas, o Chile tem estado livre não somente de divisões, bem como também de escândalos de corrupção importantes. Na Global Competitiveness Survey do Fórum Econômico Mundial, o Chile se localiza muito à frente dos Estados Unidos quanto à qualidade das instituições políticas, no que se refere a ausência de favoritismo político e de subornos.


Depois de Pinochet houve cinco presidentes no Chile: Patricio Aylwin, Eduardo Frei, Ricardo Lagos, Michelle Bachelet e Piñera. Todos enormemente talentosos, moderados e repletos de integridade.
 
 
Estes líderes de classe mundial têm sido chamados a cumprir com seus deveres regionais em reiteradas ocasiões. Ricardo Lagos se desempenha como enviado mundial para a mudança climática para o Secretário Geral das Nações Unidas Ban Ki-moon. Bachelet acaba de se tornar a encarregada da agência ONU Mulher, a nova organização para promover os direitos da mulher.
 
Passar uns dois dias intensos explorando as opções econômicas do Chile é como ver uma formulação de políticas modernas em sua máxima expressão. O governo age com uma visão de sustentabilidade fiscal no longo prazo. Em vez de passar por "estímulos" abertos e inalcançáveis cortes do orçamento como nos Estados Unidos, o Chile opera de acordo a uma regra orçamentária que impõe o equilíbrio acima do ciclo econômico. O orçamento se mantém em superávit durante épocas de auge com o objetivo de financiar os déficits dos maus tempos.
 
Estas normas políticas são o resultado de uma profunda reflexão e de um estudo cuidadoso. O governo de Piñera tem criado várias comissões para estudar os complexos desafios da política econômica, assessorando-se com ex-funcionários e especialistas acadêmicos de todas as tendências políticas. Os relatórios logo se convertem em políticas astutas e de comum acordo.
 
Quando houve o terremoto de fevereiro, o ministro da Fazenda Larraín foi capaz de formar um amplo consenso político em cima de um audaz e responsável plano para financiar a reconstrução. Esta foi uma importante e elegante façanha para um desastre que custou ao redor de 18% do PIB em perdas econômicas. Para a economia norte-americana, seria o equivalente a uma perda de US$2 trilhões.
 
O país rugiu de volta. O rápido crescimento dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) deveria ser o dos BRICCs, com o Chile exatamente ao lado da China. A China se tornou o principal sócio comercial do Chile, substituindo os Estados Unidos, além de ser também o destino das crescentes exportações do cobre chileno. Por sua vez, o Chile pode se transformar no centro de negócios da China na América do Sul.
 
Em um intenso debate com Piñera, Larraín e suas equipes de especialistas, os líderes do Chile olham para frente fazendo perguntas e propondo soluções para uma educação de qualidade, saúde acessível, energia sustentável e inovação tecnológica. O Chile vai colher os benefícios deste profundo investimento no futuro. E talvez as sociedades apaixonadamente divididas poderão aprender do Chile antes de ter que aprender de seus próprios erros de uma forma dura e trágica.
 
Publicado no New York Times, 20 de Outubro de  2010

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