Testada no terremoto de 2010

Tecnologia antissísmica desenvolvida por empresa chilena se massifica

Eficiência e baixo custo significaram que países como o Peru, Equador e México se interessassem pela empresa Sirve.

lunes, 05 de septiembre de 2011  

O terremoto de 8,8 graus do dia 27 de fevereiro de 2010 foi o cenário perfeito para pôr à prova a tecnologia sísmica aplicada nas construções do Chile. É o caso dos dispositivos desenvolvidos pela equipe de engenheiros liderados por Juan Carlos de la Llera, que mostraram uma excelente resposta em estruturas tão emblemáticas como a torre Titanium, -uma das mais altas da América do Sul- ou o cais de Coronel, localizado no próprio epicentro, que puderam funcionar imediatamente após o sismo.

Dada esta efetividade, a demanda por este tipo de tecnologia aumentou consideravelmente. Antes do terremoto, somente 13 construções contavam com estes dispositivos, já atualmente estão sendo aplicados em 45 projetos de diversas naturezas, ao longo do território nacional. Sua alta eficiência e baixo custo significou que inclusive países como o Peru, Equador e México estão interessados nestas inovações da Sirve, a empresa criada por De la Llera e Carl Lüders em 2003.

Atualmente a firma trabalha no isolamento sísmico da GNL Mejillones, um gigantesco tanque de gás liquefeito de mais de 160 toneladas e 50 metros de altura, localizado na baía de Mejillones e que deve cumprir com altos padrões de segurança internacional. “No norte do Chile, desenvolve-se grande parte da mineração nacional, e por isso a criação de dispositivos antissísmicos para proteger estas construções é um dos nossos principais desafios”, explicou De la Llera, que também é decano de Engenharia da Universidade Católica.

Estes engenheiros também apresentaram um anteprojeto de isolamento sísmico tridimensional para o Extremely Large Telescope, um dos maiores telescópios do mundo, que estará localizado nas proximidades da cidade chilena de Antofagasta, onde, de  acordo com a comunidade científica, existe um alto risco de sofrer um sismo de grande magnitude nos próximos anos.

Além destes grandes projetos, a Sirve está desenvolvendo dispositivos de isolamento para moradias sociais. “Acreditamos que o baixo custo ou a condição temporária deste tipo de construções não pode ser um impedimento para que não se desenhem com o mesmo padrão sísmico do resto das estruturas, por isso desenvolvemos dispositivos específicos e de baixo custo para dar uma solução mais efetiva a este problema”, acrescentou o engenheiro.

Tecnologia made in Chile

O Chile é um dos países com maior atividade sísmica do mundo, com pelo menos um evento de grande magnitude a cada 10 anos, tanto que do seu território já se liberaram 46,5% de toda a energia sísmica gerada no planeta durante o século XX. Esta condição é a que torna o Chile um verdadeiro laboratório natural para a pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias que mitiguem o impacto desses fenômenos naturais.

Durante o sismo de 27 de fevereiro  -o sexto mais forte dos últimos 200 anos- somente 1% dos prédios teve danos estruturais. E com esta baixa porcentagem, a qualidade da engenharia nacional foi reconhecida por especialistas de prestigiosas instituições como as universidades de San Diego, Berkley e o MIT, além da Science, a publicação mais importante no âmbito científico.

Apesar disso, os terremotos custam ao Chile em média US$ 1 bilhão ao ano. Isto, devido à alta porcentagem de danos não estruturais que sofrem as construções essenciais ou que contêm elementos de grande valor, como os observatórios astronômicos, as indústrias, hospitais, portos, estradas e museus. “Neste aspecto há casos emblemáticos como os danos no aeroporto ou na indústria vitivinícola, onde a ruptura de depósitos e adegas significou a perda de 120 mil litros de vinho, com um custo aproximado 50 milhões de dólares”, indicou o decano da Engenharia da UC.

Reconhecimento externo

A tecnologia desenvolvida pelos engenheiros da Sirve reduz especificamente este tipo de danos, através de duas espécies de dispositivos: os de isolamento sísmico e os de dissipação de energia. Os primeiros –para edifícios de baixa altura- separam a estrutura do solo impedindo a passagem da energia e reduzindo consideravelmente os esforços e deformações. Os segundos, para edificações de mais de 10 andares, captam parte da energia do sismo, acumulam-na em forma de calor, e logo a liberam gradualmente ao ambiente.

Hoje este tipo de tecnologia está sendo incorporado  na construção de todos os novos hospitais públicos do país. “Poderíamos dizer que no Chile houve uma mudança na política pública e se criou consciência da necessidade de proteger construções tão sensíveis como estas”, aclarou De La Llera.

A grande contribuição que estas inovações desenvolvidas por estes chilenos têm significado foi reconhecida por Endeavor, organismo que destacou De la Llera como o empreendedor do ano entre mais de mil projetos de 12 países, em uma cerimônia realizada em julho no Silicon Valley, Estados Unidos.

Imagens: cortesia Pedro Peanno

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