Coluna do escritor chileno

Skármeta no Newsweek: Santiago ou a gata borralheira da América Latina

O autor de “El cartero de Neruda” explica como poetas, investidores e até mesmo os mineiros transformaram a imagem da cidade-capital.

miércoles, 09 de marzo de 2011  

Após o terremoto e o episódio dos mineiros, o Chile esteve nas primeiras páginas dos meios de comunicação do mundo inteiro durante 2010. Mais além do processo de reconstrução e do bem-sucedido salvamento de “los 33”, o país tem chamado a atenção de publicações como The New York Times, que recentemente considerou a capital, Santiago, como o destino top para esta temporada.

Para compreender como é e o que oferece a cidade, cuja imagem tem sido mudada por poetas e até investidores passando pelos próprios mineiros outrora soterrados, foi que a revista norte-americana Newsweek solicitou ao literato chileno Antonio Skármeta um relato sobre a cidade, onde a qualifica como “a gata borralheira da América Latina”.

O autor de El cartero de Neruda contou que recentemente visitou o seu restaurante favorito – localizado “na periferia da cidade fora dos radares dos operadores turísticos”- e os comensais falavam exclusivamente em inglês e em português, e aí com uma mistura de “orgulho e melancolia” pediu o seu prato predileto: centolla e cordeiro de Magalhães.

“Estava claro que Santiago já não era a modesta capital do fim do mundo e se havia tornado uma presa tentadora para turistas e investidores curiosos (…) Há apenas uma década, era somente uma parada intermediária rumo às grandes atrações turísticas, como os majestosos vulcões do sul, a neve da Antártida, os lagos como se fossem espelhos gigantes do céu, a pesca de trutas e salmões ou o loquaz silêncio do deserto no norte. Agora, Santiago é um lugar onde os estrangeiros vêm para ficar. A gata borralheira da América Latina se transformou em uma princesa”, escreveu.

Skármeta garantiu que bairros como Providencia tem permitido dar a Santiago um aspecto de metrópole, tanto que alguns se atreveram a batizar de “Sanhattan” um de seus setores financeiros, que aos hotéis chegam abastados turistas e que no bairro alto as lojas com o último da moda europeia convive com a feira do pueblito de Los Dominicos, “um mercado de outros tempos”, que deleita seus visitantes com suas joias, vestuário e pinturas.

O literato também destacou que Santiago é uma zona privilegiada pelo longo e estreito território, pois se encontra a uma hora dos centros de inverno, a 100 quilômetros da costa e a 50 quilômetros de algumas vinícolas de fama mundial, onde “sempre haverá alguma van ou ônibus que leve de volta a seu hotel os que ultrapassaram sua cota com algum desses elixires”.

“Santiago é também o epicentro da grande poesia e onde nunca deixamos de celebrar nossos dois Prêmios Nobel da Literatura. Quiçá, Pablo Neruda seja o poeta mais popular do mundo nas últimas décadas e as suas casas são pontos de referência para os visitantes. Uma delas, La Chascona, se encontra aos pés do cerro San Cristóbal e é um espetáculo de arquitetura extravagante, o tipo de lar que somente um poeta poderia sonhar. Uma segunda residência de Neruda, na localidade de Isla Negra, está a uma hora e 15 minutos da cidade frente a um mar de vivo azul. Alberga coleções que o vate buscou durante toda a sua vida, entre elas várias figuras enormes de barcos naufragados”, acrescentou.

O também ex - embaixador na Alemanha afirma que, ao contrário de outras cidades devastadas pela pobreza ou superadas pela modernidade, velhos setores de Santiago, como os bairros Bellavista ou Brasil, têm sido conquistados por gerações jovens que estão renovando o interior dos imóveis respeitando, ao mesmo tempo, suas antigas fachadas.

Finalmente, citou o resgate dos 33, material predileto dos meios que colocou os olhos do mundo no Chile e a seus protagonistas, espalhados entre a Europa e a Disneylândia, dividindo o palco com Olivia Newton-John ou programas de televisão tentando cativar o coração de alguma garota.


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